Morar em outro país pode ser uma experiência transformadora. Conhecer uma nova cultura, aprender novos costumes, construir uma carreira e experimentar uma rotina diferente são algumas das possibilidades que fazem muitas pessoas decidirem viver fora do Brasil.
Mas existe um aspecto da imigração que nem sempre é falado: a solidão de quem mora no exterior.
É possível estar cercado de pessoas, trabalhar, estudar, ter um relacionamento e até construir novas amizades e, ainda assim, sentir-se profundamente sozinho.
Isso acontece porque a solidão não está necessariamente relacionada à quantidade de pessoas ao nosso redor. Muitas vezes, ela está relacionada à qualidade dos vínculos, ao sentimento de pertencimento e à sensação de ter alguém com quem podemos realmente compartilhar aquilo que estamos vivendo.
Para brasileiros que vivem no exterior, essa experiência pode ser ainda mais complexa quando existe saudade da família, dificuldade de adaptação cultural, barreira linguística ou sensação de não pertencer completamente ao novo país.
Neste artigo, vamos compreender melhor por que isso acontece e o que pode ajudar a lidar com a solidão durante a experiência de morar fora.
Por que morar no exterior pode aumentar a sensação de solidão?
Quando uma pessoa muda de país, não muda apenas de endereço.
Ela também pode precisar reconstruir diversos aspectos da própria vida.
Isso pode incluir:
- amizades;
- relações familiares;
- rotina;
- ambiente profissional;
- referências culturais;
- hábitos;
- rede de apoio;
- formas de comunicação;
- sensação de pertencimento.
No Brasil, muitas dessas coisas podem acontecer de maneira espontânea.
Existe uma história compartilhada com familiares, amigos, colegas e vizinhos. Existem referências culturais, expressões, comidas, costumes e maneiras de se relacionar que fazem parte da vida cotidiana.
Ao morar em outro país, algumas dessas referências deixam de estar disponíveis da mesma maneira.
Por isso, mesmo quando a mudança foi planejada e desejada, pode existir um período de adaptação emocional.
É possível sentir solidão mesmo tendo amigos?
Sim.
Ter pessoas por perto não significa necessariamente sentir-se conectado.
Uma pessoa pode ter colegas de trabalho, conhecidos, vizinhos ou até novos amigos e ainda sentir falta de vínculos mais profundos.
Isso acontece porque pertencimento não é apenas convivência.
É também sentir que podemos ser nós mesmos, falar sobre nossas experiências, compartilhar dificuldades e saber que existe alguém disponível quando precisamos.
Para quem vive fora do país de origem, essa construção pode levar tempo.
Novas amizades precisam ser construídas, enquanto vínculos antigos podem estar fisicamente distantes.
A saudade da família também pode contribuir para a solidão
Uma das experiências mais comuns para brasileiros que vivem no exterior é sentir falta da família.
A tecnologia permite fazer chamadas de vídeo, enviar mensagens e acompanhar acontecimentos à distância. Isso ajuda, mas não substitui completamente a presença física.
Você pode conversar diariamente com sua mãe, seus filhos, irmãos ou amigos e ainda sentir falta de:
- um abraço;
- uma conversa espontânea;
- estar presente em aniversários;
- participar de reuniões familiares;
- acompanhar momentos importantes;
- simplesmente estar perto.
A saudade pode aparecer de maneira mais intensa em datas comemorativas, aniversários, momentos de dificuldade ou acontecimentos importantes.
E algumas pessoas acabam tentando esconder esse sentimento porque acreditam que, por terem escolhido morar fora, não deveriam sentir falta do Brasil.
Mas é possível estar feliz com a decisão de morar fora e, ao mesmo tempo, sentir saudade de casa.
Uma coisa não invalida a outra.
“Eu escolhi morar fora. Então não deveria reclamar.”
Esse pensamento pode aumentar o sofrimento emocional.
Algumas pessoas sentem que não têm “direito” de se sentir mal porque escolheram a mudança.
Podem pensar:
“Eu quis vir para cá.”
“Tenho uma vida melhor agora.”
“Tem tanta gente que gostaria de estar no meu lugar.”
“Eu deveria aproveitar.”
Mas gratidão não significa ausência de sofrimento.
Você pode reconhecer as oportunidades que encontrou em outro país e ainda assim enfrentar dificuldades emocionais.
Pode estar feliz por uma conquista e sentir saudade.
Pode gostar do novo país e sentir falta do Brasil.
Pode querer permanecer no exterior e, ao mesmo tempo, sentir-se deslocado.
Sentimentos diferentes podem existir ao mesmo tempo.
A barreira cultural e linguística pode aumentar o isolamento
Para algumas pessoas, viver em outro país também significa aprender uma nova forma de se comunicar.
Mesmo quando existe domínio do idioma, podem existir diferenças culturais que dificultam a construção de relacionamentos.
Expressões, humor, comportamentos sociais e maneiras de demonstrar afeto podem ser diferentes.
Isso pode gerar uma sensação de estar sempre precisando observar e interpretar o ambiente.
Em alguns momentos, a pessoa pode sentir:
“Eu estou aqui, mas não me sinto completamente parte daqui.”
Essa sensação pode ser especialmente difícil durante os primeiros períodos da imigração, mas também pode aparecer depois de anos vivendo fora.
Quando a solidão começa a afetar a saúde emocional?
Sentir solidão ocasionalmente faz parte da experiência humana.
O problema é quando ela se torna frequente e começa a interferir em outras áreas da vida.
É importante prestar atenção quando você percebe:
- tristeza frequente;
- perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
- vontade de se isolar cada vez mais;
- dificuldade para criar ou manter relacionamentos;
- sensação persistente de não pertencer;
- ansiedade;
- alterações no sono;
- cansaço constante;
- dificuldade de concentração;
- irritabilidade;
- sensação de vazio;
- pensamentos recorrentes sobre voltar para o Brasil;
- dificuldade de aproveitar as experiências positivas do novo país.
Esses sinais não significam necessariamente que exista um transtorno psicológico.
Mas podem indicar que algo merece atenção e cuidado.
Se, além da solidão, você também sente medo, preocupação constante ou insegurança relacionada ao processo migratório, pode ser importante compreender como esses fatores estão afetando sua saúde emocional. Leia também: Ansiedade e estresse da imigração: como lidar com o medo da situação migratória.

Como lidar com a solidão vivendo no exterior?
Não existe uma solução única.
Cada pessoa possui uma história, uma realidade e uma forma diferente de vivenciar a imigração.
Ainda assim, algumas atitudes podem ajudar.
1. Não espere que os vínculos aconteçam naturalmente
Quando moramos no nosso país de origem, muitas relações são construídas ao longo de anos.
No exterior, pode ser necessário criar oportunidades para conhecer pessoas.
Participar de atividades, cursos, grupos, eventos culturais, atividades esportivas ou comunidades locais pode ajudar a ampliar a rede de contatos.
No começo, talvez sejam apenas conhecidos.
Com o tempo, alguns desses contatos podem se transformar em amizades.
2. Mantenha vínculos importantes com quem ficou no Brasil
Morar fora não significa abandonar as relações que fazem parte da sua história.
Conversar com familiares e amigos, estabelecer momentos para chamadas e compartilhar acontecimentos da vida pode ajudar a manter a sensação de conexão.
Ao mesmo tempo, é importante não depender exclusivamente das relações que ficaram no Brasil.
Construir uma rede de apoio também no país onde você vive pode fazer diferença.
3. Permita-se construir uma nova identidade
Mudar de país pode fazer com que algumas referências antigas deixem de funcionar da mesma maneira.
Você pode descobrir novos interesses, desenvolver novas habilidades e construir novas formas de se relacionar.
Isso não significa abandonar quem você era.
Significa permitir que sua história continue sendo construída.
4. Não compare constantemente sua experiência com a de outras pessoas
As redes sociais podem transmitir a impressão de que todo mundo que mora fora está vivendo uma experiência maravilhosa.
Fotos de viagens, restaurantes, conquistas profissionais e momentos felizes mostram apenas uma parte da realidade.
Por trás dessas imagens também podem existir saudade, insegurança, dificuldades financeiras, conflitos familiares, solidão e dúvidas.
A experiência de cada imigrante é diferente.
5. Cuide da sua rotina
Quando a solidão aumenta, algumas pessoas começam a se afastar das atividades que antes ajudavam a organizar a vida.
Manter uma rotina possível pode contribuir para o bem-estar.
Procure preservar, dentro da sua realidade:
- sono adequado;
- alimentação;
- atividade física;
- trabalho ou estudos;
- momentos de lazer;
- contato social;
- atividades que proporcionem prazer e sentido.
Não se trata de preencher todos os espaços da agenda para evitar sentir.
É criar uma rotina que ofereça estrutura enquanto você atravessa esse período de adaptação.
E quando você sente que não pertence a lugar nenhum?
Essa pode ser uma das experiências mais difíceis da imigração.
Algumas pessoas começam a sentir que não são mais completamente do Brasil, mas também não se sentem totalmente pertencentes ao país onde vivem.
É como se estivessem entre dois lugares.
Essa experiência pode gerar confusão sobre identidade, pertencimento e futuro.
Você pode começar a se perguntar:
“Onde é a minha casa agora?”
“Eu pertenço a algum lugar?”
“Se eu voltar para o Brasil, ainda vou me sentir em casa?”
Essas perguntas não precisam ser respondidas imediatamente.
A construção de uma vida em outro país é um processo.
E a sensação de pertencimento também pode ser construída ao longo do tempo.
Quando procurar ajuda psicológica?
Nem sempre é fácil perceber quando a solidão deixou de ser apenas uma dificuldade de adaptação e passou a causar sofrimento significativo.
Se você percebe que a solidão, a saudade ou a dificuldade de adaptação estão interferindo no seu sono, relacionamentos, trabalho, estudos ou qualidade de vida, pode ser importante buscar ajuda psicológica.
A psicoterapia pode oferecer um espaço seguro para falar sobre aquilo que nem sempre é fácil compartilhar com as pessoas ao redor.
Durante o processo terapêutico, podem ser trabalhadas questões relacionadas à:
- adaptação cultural;
- solidão;
- saudade;
- relacionamentos;
- ansiedade;
- autoestima;
- identidade;
- pertencimento;
- mudanças de vida;
- dificuldades emocionais relacionadas à imigração.
A terapia não precisa ter como objetivo decidir se você deve permanecer no exterior ou voltar para o Brasil.
O objetivo pode ser compreender o que você está vivendo e encontrar formas mais saudáveis de lidar com essa experiência.
Terapia online para brasileiros que vivem no exterior
Para brasileiros que moram fora do país, a terapia online pode oferecer a possibilidade de conversar em português sobre experiências que podem ser difíceis de explicar em outro idioma ou para pessoas que não vivenciaram a imigração.
O atendimento psicológico pode ser um espaço para falar sobre solidão, ansiedade, saudade, relacionamentos, adaptação cultural e outras questões emocionais relacionadas à vida no exterior.
A psicoterapia não substitui orientação jurídica, migratória ou outros serviços especializados quando eles forem necessários. O foco do atendimento psicológico é a dimensão emocional da experiência.
Se você mora em Portugal ou em outro país e está enfrentando dificuldades emocionais relacionadas à adaptação, conheça também a terapia online para brasileiros em Portugal e os desafios emocionais da adaptação.
Se você quer entender como funciona o atendimento psicológico online, conheça como funciona a terapia online, incluindo informações sobre as sessões, horários e condições de atendimento.
Você não precisa enfrentar a solidão sozinho
Morar fora pode ser uma experiência de crescimento, descoberta e transformação.
Mas isso não significa que todos os momentos serão fáceis.
Sentir saudade, solidão ou dificuldade de adaptação não significa que você tomou a decisão errada ao mudar de país.
Também não significa que você seja fraco ou incapaz de construir uma nova vida.
Às vezes, significa apenas que você está passando por uma mudança importante e precisa de tempo, apoio e espaço para compreender o que está sentindo.
Cuidar da sua saúde emocional também faz parte da construção de uma vida em outro país.
Se você mora fora do Brasil e sente que precisa de um espaço para falar sobre o que está vivendo, a psicoterapia pode ser um caminho de cuidado.
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Perguntas frequentes
É normal sentir solidão morando fora do Brasil?
Sim. A mudança de país pode envolver afastamento da família, reconstrução da rede de apoio, adaptação cultural e mudanças importantes na rotina. A solidão pode fazer parte desse processo, especialmente quando os vínculos no novo país ainda estão sendo construídos.
Por que me sinto sozinho mesmo tendo amigos no exterior?
A quantidade de pessoas ao redor não determina necessariamente a sensação de conexão. É possível ter colegas e amigos e ainda sentir falta de vínculos mais profundos, de intimidade emocional ou da sensação de pertencimento.
A saudade do Brasil pode causar sofrimento emocional?
A saudade pode ser uma experiência emocional importante para quem vive longe de seu país de origem. Ela pode se intensificar em datas comemorativas, momentos difíceis ou quando acontecimentos importantes não podem ser compartilhados presencialmente com familiares e amigos.
Fazer terapia online morando no exterior pode ajudar?
A psicoterapia pode oferecer um espaço profissional para compreender sentimentos e dificuldades relacionados à imigração, adaptação, solidão, ansiedade, relacionamentos e outras questões emocionais. A modalidade e as condições do atendimento devem ser avaliadas de acordo com o local onde o paciente se encontra e as regras profissionais aplicáveis.
Quando devo procurar ajuda psicológica?
Se a solidão, ansiedade, tristeza ou dificuldade de adaptação estiverem interferindo de maneira significativa no sono, trabalho, estudos, relacionamentos ou qualidade de vida, pode ser importante buscar avaliação e acompanhamento psicológico.
Sobre a autora
Daniela Duarte | Psicóloga – CRP 02/17617
Psicóloga clínica com mais de 12 anos de experiência, com atuação em psicoterapia online para adolescentes e adultos. Seu trabalho aborda questões relacionadas à ansiedade, relacionamentos, estresse, adaptação, saúde emocional e desafios vivenciados por brasileiros que vivem no exterior.
Atendimento online para brasileiros no Brasil e no exterior, conforme as condições profissionais e legais aplicáveis ao local onde o paciente se encontra.
